Home / Opinião / Agricultura Digital – A nova revolução no agronegócio

Agricultura Digital – A nova revolução no agronegócio

* Por Guilherme Belardo

 

Introdução

 

Nos dias de hoje, muito temos escutado sobre a digitalização, processamento e uso de dados em todas as áreas de negócios, mas, especificamente na agricultura, esse assunto está latente e vem aparecendo como um ”pop-up” nos principais eventos, feiras, seminários e congressos do agronegócio.

Para falar um pouco da visão do que é a Agricultura Digital (AD) e do seu potencial, gostaria de remeter à historia da agricultura e às fases que considero que foram as mais relevantes na sua evolução. Iniciarei pela pré-história, passando pela história antiga, chegando às grandes revoluções agrícolas das últimas décadas e a introdução sobre a Agricultura Digital.

Por que gostaria de fazer rápida análise das grandes revoluções da Agricultura? Como poderemos observar, cada uma delas levou um período relativamente longo para sua evolução e seu estabelecimento, porém, cada uma delas aconteceu cada vez mais rápido com o passar dos anos.

Com a Agricultura Digital não será diferente. Sua evolução e estabelecimento demandará um tempo., Porém, o processo de desenvolvimento e transformação digital do agronegócio deverá acontecer de forma muito mais rápida principalmente devido ao uso de Big Data, Cloud Computing, Telemetria, Agricultura de Precisão, Integração de Sensores, Mobilidade e alta disponibilidade de dados, que estão cada vez mais presentes no dia a dia do agronegócio, desafiando o setor a repensar o modelo de negócios atual.

 

Pré-História (domínio sobre a planta):

 

Como são anteriores à história escrita (período neolítico), os primórdios da agricultura são obscuros, mas admite-se que ela tenha surgido de forma independente em diferentes lugares do mundo. Nessa época, alguns indivíduos de povos caçadores-coletores notaram que alguns grãos que eram coletados da natureza para a sua alimentação poderiam ser enterrados, isto é, “semeados” a fim de produzir novas plantas iguais às que os originaram. Essas primeiras formas de agricultura permitiram o aumento da oferta de alimento; as plantas começaram a ser cultivadas muito próximas umas das outras e assim surgiu o cultivo das primeiras plantas domesticadas, entre as quais se inclui o trigo e a cevada nas regiões dos vales dos rios Nilo (Egito), Tigre e Eufrates (Mesopotâmia, atualmente conhecida como Iraque) e rios Amarelo e Azul (China). Nascia aqui a Agricultura.

 

Idade Antiga (cultivo da planta):

 

Há 5.000 anos, quando a agricultura neolítica atingia apenas o Atlântico, o mar do Norte, o Báltico, a Sibéria, o vale do Ganges e a grande floresta equatorial africana, as regiões mais próximas desse centro, na Ásia ocidental, na Europa oriental e na África setentrional, já estavam há muito tempo cultivadas e percorridas por rebanho. O rio Nilo transbordava a cada ano entre julho e outubro e os cultivos de vazante eram feitos após o recuo das águas, quando os solos estavam embebidos e enriquecidos pelos depósitos de aluviões, sendo que a colheita acontecia durante a primavera. Há registros de cultivos em pelo menos três regiões diferentes do mundo em épocas distintas: Mesopotâmia, América Central e nas bacias hidrográficas da China e da Índia. Nascia aqui a formação dos primeiros clusters agrícolas e o início da comercialização de seus produtos.

 

Revolução Industrial (mecanização agrícola)

 

A Revolução Industrial foi a transição para novos processos de manufatura no período de 100 anos, entre 1750 e 1850. Esta transformação incluiu a transição de métodos de produção artesanais para a produção por máquinas, a fabricação de novos produtos químicos, novos processos de produção de ferro, maior eficiência da energia da água, o uso crescente da energia a vapor e o desenvolvimento das máquinas-ferramentas, além da substituição da madeira e de outros biocombustíveis pelo carvão. A revolução teve início na Inglaterra e, em poucas décadas, se espalhou para a Europa Ocidental e os Estados Unidos.

Na agricultura, os países que se industrializaram nesse período modernizaram os seus sistemas de cultivo, elevaram a produção e a produtividade – produzir mais com menos terra e mão-de-obra – introduziram novas técnicas com o desenvolvimento de equipamentos agrícolas. A migração para as cidades, nesse período, também diminuiu o número de pessoas envolvidas nas atividades agrícolas. Dessa forma, a Revolução Industrial e a intensa eficiência e ganhos de escala gerada por ela exigiram uma Revolução Agrícola, capaz de ampliar o fornecimento de matérias-primas à indústria e a produção de alimentos necessária ao abastecimento de uma população que se urbanizava.

 

Revolução Verde (uso de técnicas agronômicas para maximizar a produtividade):

 

A Revolução Verde tem início em 1950, quando os países desenvolvidos criaram uma estratégia de aumento da produção agrícola mundial por meio da introdução de técnicas mais apropriadas de cultivo, mecanização, uso de fertilizantes, defensivos agrícolas e a utilização de sementes de alto rendimento em substituição às sementes tradicionais, menos resistentes aos defensivos agrícolas. Iniciado nos EUA, esse processo ficou conhecido como Revolução Verde e, com a elevação da produtividade, diminuiu o preço de diversos produtos para o consumidor.

No Brasil, começou com o plantio direto, que é um sistema diferenciado de manejo do solo, visando diminuir o impacto da agricultura e das máquinas agrícolas (tratoresarados, etc.) sobre o solo. Nele a palha e os demais restos vegetais de outras culturas são mantidos na superfície do solo, garantindo cobertura e proteção do solo contra processos danosos, tais como a erosão, pois o solo só é manipulado no momento do plantio. O mais importante controle que se dá nesse modo de cultivo é o das plantas daninhas, através do manejo integrado de pragas, doenças em geral e plantas infestantes. Também é muito importante para o sucesso do sistema que seja utilizado a rotação de culturas.

O segundo grande avanço da revolução verde e que foi introduzido alguns anos posteriormente ao plantio direto, foi o uso de plantas geneticamente modificadas (Genetically modified organismGMO’s). Os transgênicos são espécies cuja constituição genética foi alterada artificialmente e convertida a uma forma que não existe na natureza. O gene inserido pode vir de outra planta ou mesmo de outra espécie completamente diferente. No caso das plantas, a modificação é feita visando um organismo com características diferentes das suas, como por exemplo tornar uma planta mais resistente às pragas e insetos. A planta resultante dessa inserção passa a ser denominada “geneticamente modificada”. A revolução verde vem sendo a grande responsável pelo incremento de produtividade agrícola das últimas décadas.

 

Revolução Digital (Agricultura Digital)

Mais recentemente, assim como as demais áreas de negócio mundialmente, a agricultura vem sendo cada vez mais atingida e influenciada pela o uso de internet e sua digitalização. Considerando o início dos anos 2000, tivemos uma primeira onda do uso da internet voltado ao agronegócio, onde empresas inovadoras usaram a internet como forma de comunicação, divulgação e extensão dos conhecimentos e técnicas agronômicas e ganharam expressão nacional, muitas delas internacionalmente, se estabelecendo como referências nesse setor.

Passada essa primeira fase de popularização do uso da internet no campo, uma nova onda vem tomando conta do mundo dos negócios agrícolas e impulsionando uma grande quantidade de negócios: a Agricultura Digital.

Para podermos definir de forma clara o que é a Agricultura Digital, gostaria de propor aqui uma definição que, de certa forma, pode evitar que se confunda com a já estabelecida agricultura de precisão, conceito que nasceu na década de 1980 e que hoje é uma parte relevante desse processo de digitalização da agricultura.

A Agricultura Digital (AD), também chamada de Agricultura 4.0, nada mais é do que o uso e processamento de todos dados gerados no campo, seja ele através de: a) sensores eletrônicos instalados nas máquinas b) sensores nos talhões c) uso de imagens de alta resolução (aéreas ou satélites) d) amostras e apontamentos físicos em campo (de solo, apontamento de pragas), que possam ser georreferenciados e) apontamentos econômicos que possam ser atrelados a um talhão. Tudo isso, obviamente, deve estar conectado para que o agricultor possa tomar a decisão mais acertada baseado nas informações que o campo tem gerado.

Uma grande parte dessa rápida evolução está relacionada ao surgimentos de inúmeras start-ups, que podem ser definidas como empresas formadas por um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza, que vem desenvolvendo novas soluções de forma ágil e efetiva para o agronegócio.

 

Ambiente Colaborativo

 

Por definições estratégicas e de posicionamento de mercado, as principais empresas do agronegócio, sempre desenvolveram soluções específicas para seus clientes que estavam correlacionadas exclusivamente a seus produtos, sem levar em consideração a interação com outras soluções do mercado, muitas vezes complementares, mas que estavam sendo desenvolvidas por outros setores e muitas vezes até pelos seus concorrentes.

A mais revolucionária tendência da agricultura de hoje é a colaboração e a transparência. O esforço individual das empresas não é suficiente para garantir grandes transformações e ganhos de produtividade. A colaboração via parcerias estratégicas, atração de capital de risco, uso de empresas incubadoras e de redes colaborativas (“crowdsourcing”) são essenciais hoje para a desenvolvimento da agricultura e de outros setores econômicos.

Isso vem acontecendo, principalmente, porque não podemos esperar que uma empresa desenvolva sozinha tudo que é necessário para o uso de dados no campo. Dificilmente, uma empresa que desenvolve produtos como fertilizantes, defensivos químicos ou sementes que esteja investindo em soluções digitais agronômicas para otimização da produtividade, fará o desenvolvimento de soluções de telemetria de máquinas , “core business” do setor de máquinas agrícolas, ou mesmo soluções de controle e gestão financeira, que podem ser desenvolvidos por grandes empresas de ERP’s ou mesmo por novas start-ups.

Para o agricultor, pouco importa de onde e por quem essas soluções vêm sendo desenvolvidas. O que ele procura são soluções completas onde seus dados estejam integrados e onde ele possa tomar a melhor decisão agronômica e econômica para maximizar sua produtividade e/ou redução de custos de produção, visando sempre a maior rentabilidade para o seu negócio.

 

A Agricultura Digital no Brasil

 

Seria muito audacioso e pretensioso tentar prever o que acontecerá nas próximas décadas e, sem dúvida nenhuma, a única certeza é de que boa parte da forma e modelo de negócios na agricultura vai se reinventar .

 

O ambiente agrícola é vasto e fértil e o Brasil vem se estabelecendo como um dos líderes nessa revolução digital da agricultura, por sua vocação agrícola, por sua liderança no avanço de produtividade e por seus profissionais e pesquisadores que são referência do agronegócio.

 

Prova disso é que vêm surgindo “clusters” e “hubs” de empresas ligadas à Agricultura Digital nas principais regiões ligadas ao setor, de norte a sul, de leste a oeste. Gostaria de citar apenas uma delas, que inspirando-se no Vale do Silício (principal pólo de desenvolvimento digital no mundo) criaram o AgTech Valley , em Piracicaba, em conjunto com uma das principais Universidades de Agronomia da América do Sul (ESALQ/USP) e tem atraído inúmeras empresas com interesse em desenvolver soluções para o agronegócio e investidores estão visualizando um “oceano azul” de oportunidades.

As empresas do agro têm que se atentar ao surgimento dessas novidades e estar muito próximas a esses novos empreendedores se quiserem evoluir e manter a sua participação junto ao agricultor. Neste contexto, a Agricultura Digital torna-se imprescindível tanto para as empresas do setor quanto para os produtores brasileiros, que deverão trilhar este caminho em busca de melhor rentabilidade para suas produções agrícolas.

 

 

Guilherme Belardo

Gerente de Produto – The Climate Corporation/Monsanto

Engenheiro Agrônomo – Esalq/USP

Mestrado em Engenharia de Sistemas Agrícolas – Esalq/USP

Doutorado em Produção Vegetal – UNESP / Jaboticabal

MBA em Gestão Estratégica do Agronegócio – FGV/SP

 

Check Also

Agriworld entrevista Francesco Pallaro – Presidente da Italocam

“O setor do agronegócio já está se recuperando”   Entrevista realizada por Julian Mendieta em …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *